Marley
- 14 de jul. de 2014
- 3 min de leitura
Lembro-me de quando nos conhecemos como se fosse ontem.
Eu estava na ingenuidade e energia da infância. Vivia correndo, um tanto quanto perdido.
Lembro que era noite. Você estava com seus pais que resolveram por me adotar.
Soube naquele momento que tinha ganhado um amigo para a vida toda.
Você também na infância olhava para mim desconfiado no início. Era diferente eu estar em sua casa, eu sei, mas você sempre gostou de mim.
Lembro-me excessivamente bem da primeira noite que dormi lá.
Chorei a noite toda. Era difícil se adaptar em uma nova casa, sentia saudades de meus amigos.
Logo no dia seguinte você em um gesto simples como em me dar um biscoito já foi me abraçando.
Vivíamos juntos se lembra? Vivíamos brincando, correndo de um lado para o outro. Sua mãe ficava desesperada com a nossa bagunça.
Nossa brincadeira preferida era com a velha bola que tínhamos. Corríamos de um lado para outro atrás da bola. Eu sempre ganhava. E no final te dava a bola de novo pra continuar a brincadeira.
Vimos nosso primeiro filme de terror. Os barulhos altos me assustaram mais do que tudo. Naquela noite nenhum de nós conseguia dormir. Resolvemos nos revezar. Enquanto um dormia o outro tomava conta.
Claro que você acabou por dormir a noite toda e eu por ficar de guarda né, mas detalhes. Eu te perdoei no mesmo dia.
O tempo foi passando. Ambos ficamos mais maduros, mais crescidos.
Mas continuávamos sempre juntos. Lembro-me de você me contando de seus problemas na escola, seus sonhos.
Sempre fui um excelente ouvinte, mas nunca fui de falar.
Lembro quando você trouxe sua primeira namorada para casa. Ela tinha um cheiro estranho, mas enfim. Você gostava.
Lembro de nossos passeios matinais. Resolvemos entrar em uma de fazer exercícios toda hora. Cá entre nós, nós precisávamos.
Toda manhã no início andávamos. Depois corríamos. Toda manhã lá estávamos juntos.
Lembro de quando passou no seu esperado vestibular. Nunca estudei, mas sempre me considerei inteligente.
Como você estava feliz na faculdade. Todo noite chegava em casa com um cheiro forte de cerveja e cansado.
Claro, lembro-me infelizmente bem da noite do acidente de seu pai. Foi a mais longa das noites para todos nós.
Fiquei junto de você, te esquentando, te ajudando. Foi complicado. Ainda sentia o cheiro dele na casa.
Lembro quando você conheceu sua esposa e se casou. Foi emocionante. Até eu participei da grande festa.
Você se mudou no dia seguinte. Eu permaneci na casa, comprometido a ficar com sua mãe.
Eventualmente também encontrei minha amada. Ela estava na rua, sem casa definida como eu estava na infância.
Sua mãe se compadeceu, olhou para mim e a trouxe para casa.
Foi amor à primeira vista. Tivemos dois filhotes.
Lembro do dia que você mesmo teve seu filho. Foi lá em casa e me chamou para morar contigo. Nunca fiquei tão feliz.
Fui eu e minha família ficar com a sua. Eu brincava com seu filho exatamente como brinquei contigo.
Mas o tempo se passou rápido e eu agora sentia. Meu corpo doía, vivia deitado. Você ainda era jovem, mas para mim o tempo passou mais rápido.
Envelheci. Adoeci.
Lembro da noite que exatamente como eu fizera você ficou a noite toda do meu lado, me ajudando, me amando.
Uma madrugada levantei devagar, beijei meus filhotes e minha amada. Beijei seu filho e sua mulher e fui até onde você dormia no sofá.
Tinha apagado de novo vendo filme de terror. Exatamente como na infância.
Peguei um cobertor pra você e deitei ao seu lado.
Te beijei e te olhei uma última vez.
Não cheguei a ver a sua reação nem a de ninguém ao acordarem e me verem já morto.
Parti tranquilo e feliz.
Vivi uma amizade, uma relação eterna de amor. Um dono e seu cachorro. Você e eu.

Imagem retirada de: http://www.beautyangleshop.com/Article/WorldBusiness/201010/1631.html






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