O Domador
- 4 de ago. de 2014
- 4 min de leitura
Vestindo a roupa ele percebeu o que inevitavelmente iria fazer.
Caminhando até o picadeiro seu coração dava pulos em seu peito. Estava longe de ser sua primeira vez, mas mantinha o nervosismo de novato. Um pouco antes de chegar até o palco iluminado ele respirou fundo e olhou para cima em silêncio. Era seu momento de concentração solitária, sua própria rotina especial que fazia. Depois saiu das sombras e adentrou o picadeiro.
Estava lotado ao seu redor. Foi saudado por uma onda de aplausos uníssonos que pareciam vir de todos os lugares. Não conseguia discernir rostos isolados, mas via uma enorme grande massa de olhos, bocas e mãos, todos direcionados para ele, o único ser dentro do picadeiro. Ele saudou o público presente, inclinando seu tronco e cabeça, mantendo seu braço esquerdo fixo no abdômen e o direito ao lado do corpo, para todos os lados. Virou-se finalmente para a única coisa que dividia o picadeiro com ele, uma jaula vazia.
Chegou até ela, abriu sua porta, entrou e trancou-a. Olhando fixo para frente viu uma pequena carroça toda coberta por grossos panos azuis, se aproximar devagar da outra extremidade da jaula. Abriu-se uma passagem e a carroça adentrou a jaula e parou. Bruscamente os panos foram ao chão, revelando o que se escondia dentro do veículo. Lentamente foram caminhando pela rampa colocada na frente da carroça, até estarem dentro da jaula maior.
Eram pessoas. Seres humanos cabisbaixos, com olhares distantes e feições abaladas. Caminhavam recurvados até o meio da jaula, aproximando-se do homem. A carroça com grande estardalhaço passou a mover-se novamente e saiu por fim da jaula, fechando a saída por onde entrara, e trancafiando o homem e aquelas pessoas recém-liberadas. Elas então, como se acordando de um transe, por fim olharam para cima, cruzando olhares com o homem que até então estava parado.
Ele olhou e piscou duas vezes. Começou a suar frio, e suas pupilas dilataram. Ele conhecia aquelas três pessoas, e conhecia bem. Era uma mulher morena, de pela branca e olhos castanhos escuros, que logo reconhecera como sua ex-mulher. Viu também seu irmão, castanho claro, alto, magro. E por fim, era seu antigo patrão, um senhor negro de mais idade, com peso acima da média e olhar preguiçoso. Sua ex-mulher abriu a boca e gritou em ameaça. Os outros dois se juntaram a ela e começaram a urrar guturalmente, um grito forte que chegou a assustar o homem de início. Mas não assustam mais.
Então ela mesma tomou a atitude e partiu para cima dele, com as unhas e boca vibrando ameaçadoramente. Xingamentos vinham da boca dela sem parar.
- Você acha que está sempre certo, não é? Você não é o homem? Porque não vem lutar? TERMINA ISSO MACHÃO! FINALIZA COMIGO SEU COVARDE! – ela cuspia em sua direção enquanto andava de um lado para outro buscando uma brecha para ataca-lo. Ele mantinha-se em movimento circular para não dar as costas à ela e puxou em fim o instrumento que mantivera em sua mão o tempo todo. Um som estridente cortou o ar da noite. Até então barulhento, o público havia se silenciado para apreciar o show que começara. Portanto foi fácil de ouvir o forte som do chicote rompendo o ar e estalando o chão em frente à mulher.
Como se acordando de um segundo transe, ela assustou-se com o barulho e olhou assustada para ele. Ele não recuou. Novamente vibrou o chicote e gritou de volta para ela - Vá embora! Volte para lá! Era tudo culpa sua!
Ela gritou xingamentos de volta e ameaçou ir às vias de fato, quando foi novamente silenciada pelo som do chicote intercalado com gritos fortes do homem.
- Eu te amei! Ingrata! Vá embora sua piranha! VÁ EMBORA! VOCÊ NÃO ME CONTROLA! – ele esbravejava com força, olhando diretamente para seus agora assustados olhos castanhos. Ela recuava contra vontade, como que se engolindo em seco tudo aquilo e conformou-se até ir ao canto e lá ficar até o fim do show.
Foi assim durante o resto da performance. Mais brigas e imposições contra seu irmão egoísta, chegando até ao ponto dele abrir sua boca em silêncio na frente do homem, sem coragem de falar mais nada. O homem aproximou-se dele, olhando em seus olhos, botou sua mão dentro da boca do irmão, depois sua cabeça, e fez o sinal de silêncio. Com seu chefe, mais intenso ainda. Ele esbravejava, suas veias estufavam em seu rosto vermelho. Seus olhos dilatados, seus músculos retesados seguravam firme o chicote, enquanto ele sufocava os xingamentos deles com seus próprios gritos.
- Você é um inútil, sempre foi! Peso-morto, perdedor! Seu merda, incompetente! – eram destruídos por frases suas, suas próprias vozes de comando – Vá embora! Seu filho da mãe ganancioso! Seu corno viado! Vá pro inferno!
Por fim os três encontravam-se no fundo da jaula acuados frente a um único homem que avançava sem dó para cima deles. O povo aplaudia freneticamente enquanto o homem jogava o chicote no chão, e a carroça se aproximava para recuperar seus três passageiros. Uma chuva de palmas e gritos de alegrias e congratulações vinham das arquibancadas enquanto o homem saía da jaula e caminhava pelo picadeiro até os fundos.
Enquanto retirava o seu colete e chapéu um jovem rapaz, recém-chego no circo aproximou-se dele. – Parabéns senhor! Outro grande show! Não sei como o senhor consegue ter coragem de estar lá dentro sozinho com aqueles animais perigosos! – exclamou ele animado. O homem olhou por um instante para o rosto do menino como se em indagação e depois se virou para olhar o picadeiro. Três grandes tigres, um castanho, um alto, e um negro, caminhavam lentamente e majestosamente para dentro da jaula da carroça ainda sobre aplausos efusivos do publico. Ele piscou novamente e viu lá trancafiados sua ex-mulher vadia, seu irmão egoísta e seu ex-patrão ganancioso.
Ele sorriu levemente para o rapaz e disse por fim: - Pois é, não é fácil. São animais selvagens e se eu bobear, eles me devoram.

Imagem retirada de: http://www.desfavor.com/blog/2010/10/desfavor-da-semana-pais-picadeiro/






Comentários