Os três homenzinhos
- 15 de jul. de 2014
- 8 min de leitura
Existem histórias e mais histórias.
Histórias que lemos no silêncio da noite sozinhos. Histórias que contamos para nós mesmo no acalanto de nossa voz silenciosa na mente.
Histórias que ouvimos atentos da voz de outros e guardamos silenciosas e constantes por toda a nossa vida.
Histórias que contamos para outros, que criamos, modificamos e enfim passamos adiante.
Histórias como a dos três homenzinhos.h
Havia um tempo atrás três homenzinhos bem parecidos entre si. Os três moravam um ao lado do outro, em pequenas casinhas que haviam construído.
E todos os dias eles acordavam cedinho, saíam para o trabalho juntos e voltavam à noite. De noite antes de dormir eles ficavam conversando juntos na casa do homenzinho do meio.
E embalado nessa rotina o tempo passou e passou. Após um tempo a tristeza e o descontetamento caíram como uma nuvem espessa sobre os três.
A rotina chateava, e a insatisfação crescia, forte, incomodando. Com o tempo passaram a ir sozinhos para o trabalho e as conversas foram tornando-se mais e mais rápidas, até que deixaram de ser conversas e por fim o que quer que fossem, deixaram de existir.
Porém cada homenzinho reagia à tristeza de uma forma diferente.
O homenzinho da casa da direita, a casa vermelha, deixou-se levar pela tristeza, cansado de ir contra algo que parecia crescer sem parar. A rotina continuava, sua insatisfação crescia. O que era tristeza tornou-se estresse que por fim virou angústia.
Angústia forte, que corroia o interior, feito rato faminto.
O homem da casa à esquerda, a casa amarela, encarou como uma fase, que logo passaria tão naturalmente como chegou. Com o tempo passando, e a insatisfação não querendo arredar o pé, cresceu a agonia, o nervoso, um pânico de estar sempre sentindo aquilo, por muito tempo, ou pior, para sempre.
O homenzinho da casa do meio, a casa verde, lutou contra aquilo que o afligia. Sentia que o problema era consigo, e era ele que tinha que resolver.
Então os homenzinhos tiveram suas idéias clareadas.
O homem da casa vermelha teve a consciência que sua angústia se resumia a sair desse local, logo indo para outro lugar ele estaria bem. Só precisava ir para longe daquele lugar, daquele trabalhozinho, daquela casa. Longe de tudo aquilo, ele estaria bem.
O da casa amarela teve a luz que a pânico que sentia, o nervoso seria curado em nunca estar sozinho, em estar coberto de pessoas que o querem bem, e estejam com ele. Sendo amado, popular, nunca mais sentiria aquela sensação horrível.
Já o homenzinho da casa verde, que entre eles era o menorzinho, botou na cabeça que só havia um jeito de sair dessa fossa. Era lutar ele mesmo, com ajuda sempre, contra o que afligia, não importa o quanto fosse complicado ou mesmo demorado.
Acreditando agora estarem iluminados com relação a o que fazer, eles retomaram suas atividades cotidianas.
Por efeito de facilidade na escrita e até na leitura vamos associar o homem à cor da sua casa, não tendo qualquer referência a cor de pele.
O homem vermelho passou a suportar todas as dificuldades e a angústia que sofria pensando no futuro, no momento em que enfim iria dar o fora daquele lugar e enfim seria feliz.
O homem amarelo passou a se dedicar para ser reconhecido e querido pelos outros. Passou a fazer tudo pensando nisso, e consegui assim suportar o pânico e o nervoso estando rodeando de pessoas que falavam com ele, que o reconheciam e o queriam bem.
O homem verde passou a todo dia superar seus limites e seus medos. Toda noite meditava, se concentrava. Enxergava dentro de si, expondo suas fraquezas e medos. Com isso caiu em uma depressão ainda maior. Ficava em casa grande parte do dia, mas não desistiu de forma alguma, renovando-se por completo.
Após mais de 1 mês, o homem verde estava em todos os sentidos exausto, visualmente abalado, e acabado, como se estivesse na guerra.
Foi então atrás de seus amigos vizinhos, para conversar um pouco após tanto tempo.
Ao chegar à casa vermelha foi surpreendido por caixas e mais caixas. Antes que pudesse perguntar, o homem vermelho veio descendo a escada apressado com suas malas, sorrindo.
Ao ver o homem verde em sua casa, com visual acabado ele se assustou: “Uau cara! Como você está mal! Você deveria sair mais de casa! Ou melhor, sair daqui de vez! Esse lugar não faz bem!”, afirmou ele categoricamente.
O homem verde com um semblante preocupado falou: “Eu estou bem amigo, ando lutando. Mas para onde você vai afinal?”.
O homem vermelho não se contendo de felicidade disse: “Para fora daqui! Isso que importa para mim! Adeus amigo meu!”.
E saiu junto de suas malas e mar de caixas.
O homem verde então andou até a casa amarela. A casa estava lotada de pessoas que ele nunca tinha visto antes.
Ele entrou pela porta da frente com dificuldades e atravessou o mar de pessoas que se estendia pelo corredor e pela sala.
Até que enfim encontrou seu amigo sentando no sofá rodeado de pessoas. Ao vê-lo o homem amarelo gritou: “Grande amigo! Nossa, o que aconteceu com você? Venha, junte-se a nós! Estamos aqui curtindo!”.
O homem verde assentiu e sentou-se um pouco.
Ao estar ali sentando em meio aquelas pessoas ele se sentiu mal, como se aquelas não fossem as pessoas com quem ele deveria se envolver.
Ele resolveu não ir contra essa sensação e falou com o amigo: “Amigo, agradeço muito o convite mais tenho que ir. Só passei para saber como você está indo!”.
O homem amarelo sorrindo disse: ”Eu estou bem amigo, obrigado! Está certo então, depois eu falo com você!”.
Então o homem verde voltou para sua casa e sua própria guerra particular.
A partir daí a felicidade chegou com vontade para todos os três.
O homem vermelho agora morando em outro lugar, sentia-se feliz como há tempos não sentia. Tudo o fazia rir, sentia mais jovem e disposto, querendo explorar tudo, curtir ao máximo.
O homem amarelo conseguiu muito e muitos “amigos” e até alguns muito poucos amigos de verdade, e no meio deles sentia-se feliz, sentia-se pleno, completo e tranqüilo.
O homem verde acordou um dia e sentiu mais leve do que nunca. Sentia-se como se tivessem retirado um mochila extremamente pesada que ele carregava desde que se lembrava.
Abriu a janela e sentiu o dia cumprimentar seu novo eu, sua nova forma de viver.
Tudo ia muito bem para os três enfim. Mas o tempo, sempre o tempo, assim como conserta ele também destrói, e particularmente odeia o final feliz para sempre.
Assim após um tempo uma sensação terrivelmente familiar voltou a se apoderar do homenzinho vermelho. Ele novamente sentia a angústia, a vontade de sair daquele local, a insatisfação, a tristeza.
O homem amarelo também voltava a sentir sensações antigas. Um nervoso, uma tristeza que se tornava um pânico, voltava a fazer de seu coração seu lar. Muitas das pessoas como é comum delas, mudou de idéias e de afinidade e afastou-se dele. O fato de fazer tudo para elas, o tempo todo também havia desgastado, não só sua relação com elas como a si mesmo, que não dedicara tempo a ele mesmo.
O homem verde por sua vez sentia-se pleno, leve, e tranqüilo. Sentia que o lugar onde estava havia mudado, tornado-se melhor mesmo ele não tendo se mudado, e sentia que as outras pessoas lhe eram mais cordiais, mais sociáveis e abertas, mesmo ele não tendo se dedicado exclusivamente a atrair suas atenções.
Para o homem vermelho o lugar onde mora agora, estava lhe sufocando, sentia-se preso, angustiado. Precisava sair de lá de todo jeito. Nada mais era novidade, a rotina existia e essa sensação não saía jamais.
O homem amarelo, exausto por não ter dado a si mesmo um tempo para se cuidar, e triste por não ter tanta atenção quanto queria sentia aquela sensação esmagadora, aquele pânico crescendo. Começou a grudar nos únicos poucos amigos que tinha, afinal era a única saída para evitar de sentir aquela sensação. Passou então a viver para eles e com eles, em todo o momento. O problema é que assim como tudo no mundo, o excesso de algo causa mal. Mesmo o excesso de água mata uma planta. E não foi diferente nesse caso. A necessidade que o homenzinho amarelo tinha por seus amigos, o excesso de querer sempre estar lá causou que o número de poucos amigos que tinha tornar-se um grande 0.
O homem vermelho guiado por esse sensação de angústia que crescia e pelo medo em enfrentá-la vendeu tudo o que tinha lá e voltou para o lugar onde morava.
O homem amarelo por sua vez, guiado pela crescente sensação de tristeza pelo abandono injusto, acreditava, dos amigos, pelo pânico e pela covardia em vencê-lo voltou a sua rotina normal.
Um dia ambos foram até a casa verde, falar com o amigo.
Ao entrarem na casa sentiram um ar diferente na casa, como se algo tivesse mudado ali. O homenzinho verde estava sentando em uma cadeira perto da mesa escrevendo algo em um pedaço de papel. Ao vê-los, o homem verde imediatamente pediu licença e foi recebê-los.
“Amigos, que prazer vê-los! Quanto tempo!”, disse ele sorrindo e abraçando-os.
O homem vermelho impressionado com o que sentia naquela casa não conseguiu evitar em falar: ”Mas o que você fez aqui? Está tudo tão claro, novo!”.
E o homem amarelo não ficou para trás: ”E o que está fazendo aí sozinho?”
O homem verde olhou como se esperasse essas perguntas e sorrindo respondeu: ”Não fiz nada na casa, ao menos nessa que vocês estão dentro. E também não estou sozinho, estou conversando com meu melhor amigo.”
Os homens vermelho e amarelo não entenderam nada desse papo: ”Como assim nessa casa que nós estamos dentro? E como assim melhor amigo? Você está sozinho!”.
O homem verde respondeu com calma sempre: ”A nossa verdadeira casa não é essa que constantemente chamados de lar. É nosso coração, nossa alma, e lá que ocorrem as reais mudanças. E quanto a meu melhor amigo, sou eu mesmo, se eu não me amo e me respeito como podem outros serem amigos de alguém que não é amigo de si mesmo? Como confiar em alguém assim?”
Enquanto ele terminava de falar, um grupo de pessoas apareceu na porta com cartas e refrigerantes. ”Ei homem verde, viemos para jogar carta, vamos?”, disseram eles.
O homem verde sorriu e respondeu: “Claro amigos, podem entrar. E vocês não querem se juntar a nós?”, falou para os homens amarelo e vermelho.
Ambos recusaram o convite e foram lá para fora.
“Não entendo! Como ele pode ficar tão feliz vivendo no mesmo lugar, na mesma rotina?”, disparou o homem vermelho.
“E como pode ficar tranqüilo estando sozinho? Não faz sentido algum!”, correspondeu o homem amarelo.
Eis que no horizonte surge um homem de aparência pobre vestido com uma velha manta cor cinza.
O homem cinza olhou para os dois que o encaravam e disse com uma voz forte:”Ele, quem habita a casa verde, entendeu a real importância da equação. Não importa onde, nem como, mas sim quem. Não interessa onde você esteja, nem como você esteja, mas importa quem você é.”
O homem misterioso apontou seus dedos longos para o homem vermelho e disse: “Não importa para qual lugar maravilhoso você se mude, se não houver mudança onde realmente importa, em seu interior.”
E apontou para o homem amarelo e falou: “Também não interessa quantos amigos você tenha junto de você, se você mesmo não estiver a seu favor, se você não for seu maior aliado.”
E por fim ele falou antes de desaparecer na neblina da esquina: “Não é se mudando, ou juntando amigos que vocês encontrarão o que saciará essas sensações ruins. Não é lá fora, seja em um lugar, ou em outra pessoa que você encontrará o que falta a você, mas sim dentro de você mesmo, sempre mais perto do que se imagina. É o caminho mais difícil, mas o mais recompensador, o da auto-descoberta, de dissecar seus medos e fraquezas e amar-se mesmo com tantos erros e fraquezas. Se dentro de si não encontrar a paz, o equilíbrio, o amor, não haverá lugar ou amigo que lhe ajude.”
Os dois homens ficaram por um momento pensando, refletindo no que sentiram ao longo desse tempo todo, e nas verdades que encontraram nas palavras desse homem.
Por fim olharam um para o outro e depois para o céu e entenderam. Agora teriam que agir, teriam que lutar. Não será fácil, nem mesmo animador, e o caminho será longo, porém o final era o melhor possível. Era tempo de fazer a mudança definitiva e fazer a amizade duradoura de fato.
Sorriram então em meio a escuridão lá fora e voltaram para suas casas, com a certeza que não importa o quão difícil fosse, agora sabiam a direção a seguir.
Imagem retirada de : www.dreamstime.com







Comentários