O Pinguim
- 16 de jul. de 2014
- 5 min de leitura
Havia certa vez, muito tempo atrás um paraíso encarnado.
Esse tal localizado modestamente na Via Láctea era chamado de Terra e ainda não tinha vestígios da criatura chamada de humano que com a autoridade de um coco sobre seu coqueiro, tomou para si o planetinha. Nele havia diversas criaturas das mais variadas formas e cores por todos os lados. E havia também no meio desse turbilhão variado e colorido o pequeno e humilde pinguim.
O jovem pinguim, de preto opaco, e penas branquinhas no peito, olhava contemplativo para as aves que alçavam vôos cada vez mais altos. Seu olhar não escondia a tristeza que sentia.
-Ó, pobre de mim que não voa! Como quero ir alto assim! , lamentava o jovem pinguim diariamente. Ele passava o dia a acompanhar as outras aves, alcançando o céu, e de noite chorava sozinho em sua caverna.
Certo dia uma bela cisne convidou a todos para uma bela festa à noite. O problema era que a festa é logo acima do morro adiante. Todos iriam voando. O jovem pinguim ao saber do evento abaixou a cabeça e se escondeu em sua caverninha.
Dois amigos dele, um gavião marrom e uma enorme águia foram até lá chamá-lo para ir.
- Vamos lá pinguim, já estamos atrasados! , gritava o gavião. O pinguim veio lá de dentro cabisbaixo e falou amargurado:
- Eu não vou! Vão sem mim! Nem a águia tampouco o gavião entenderam o que estava acontecendo.
- Para com isso! Nós vamos juntos, agora para com isso e vamos nessa! , gritava o gavião. A águia nem falou nada. Foi até lá segurou o jovem pinguim e o arrastou para fora de sua caverninha.
- Parem com isso! Já olharam para mim? Eu não sei voar, nunca vou conseguir! Não vou conseguir chegar até lá. Aí foi a gota d’água para o gavião e a águia. Entreolharam-se espantados. O gavião tomou a iniciativa:
- Voar? Nós sabemos disso pinguim. Mas você... Antes que pudesse terminar sua frase, o jovem pinguim levantou a asa pedindo silêncio e gritou com os olhos lacrimejando:
- Eu não vou! Eu não consigo voar! Não entenderam isso? O gavião estava pronto para interceder de novo, mas a águia através de um sinal de reprovação com a cabeça o desanimou de tentar. E os dois foram embora deixando o jovem pinguim sozinho na caverna.
E assim o tempo, incansável, imparável, continuou a passar. E o que era uma frustração tornou-se um trauma, e logo uma tristeza grande. E tornou-se motivo para o pinguim desistir aos poucos de sair de sua caverna. As poucas saídas que fazia acabaram por ficar cada vez mais raras até chegar ao fim. Conformava-se em ficar dentro de sua caverna, resmungando para as paredes de suas limitações, infeliz com a injustiça de sua condição.
Após muitos anos, uma jovem andorinha olhava curiosa para a entrada da caverna, que agora era sempre silenciosa. Aproximou-se e deu um grito esperando ser atendida. O pinguim agora não mais jovem andou lentamente para a entrada da caverna e olhou para a andorinha em sua frente. Suas penas antes pretas eram agora um misto sutil de cinza e preto desbotado. Seu rosto demonstrava apatia e cansaço, resultados de um tempo de solidão auto infligida. A jovem andorinha olhou para o pinguim na sua frente e perguntou docemente:
- O senhor é o pinguim que nunca saía de casa?
- Por quê? Você também quer me zoar? – disse o pinguim já na defensiva. A andorinha pareceu surpresa com a ideia que o pinguim tivera dela.
–Não senhor, somente meu pai queria te ver. – disse por fim indo para trás da grande ave que acabara de pousar. Era uma grande águia, que apesar de também ter sentido o peso do tempo, aparentava um ar de sabedoria e entendimento.
Era seu amigo do passado. O pinguim saudou o amigo da entrada da caverna, e fitou-o em silêncio esperando que ele falasse por fim. A águia não falava nada. Limitava-se a olhar para ele, para sua caverna. Ficaram assim por alguns segundo até que enfim a águia sorrindo aproximou-se do amigo.
- Quer dizer que você permanece enclausurado nessa sua caverna? – disse amistosamente. - É assim que tem de ficar aqueles que não nasceram com a dádiva que vocês tem, de voar por aí, para onde bem entender. – falou rapidamente o pinguim com uma raiva contida. A águia não conseguiu se controlar e permitiu-se um leve riso.
O pinguim olhou surpreso para o amigo, pronto para recriminá-lo do ato, quando a águia olhou fixo para ele e ainda sorrindo o pediu para se aproximar. O pinguim nunca quisera sair de sua caverna por vergonha, mas a curiosidade de saber o motivo do riso do amigo o motivou a ir até ele. Foram até um pouco na frente de sua caverna, onde havia uma pequena depressão.
- Aposto que você nunca veio aqui antes certo? – começou a águia. - Nunca. Tenho vergonha de sair de casa assim – disse o pinguim mostrando batendo as asas, - e, além disso, não posso ir muito longe andando assim.
- Sei disso muito bem, aliás, todos sabem. Você fez questão de chorar e reclamar aos quatro cantos do mundo do seu problema. Mas você não parece saber de uma coisa.
A águia apontou sua grande asa e tocou nas grossas penas do pinguim. - Você sempre se imaginou errado. Mas não. Você era somente diferente.
O pinguim olhava para o amigo fixo, enquanto ele arrastava sua asa para apontar o grande céu azulado que se estendia por cima deles sem fim.
- Enquanto a maior parte de nós pertencia ao ar, você não. Você pertence e sempre pertenceu à água!
O pinguim sentia no seu interior que as palavras que seu amigo dizia eram a mais pura verdade, sentia que tudo aquilo fazia todo o sentido.
- O problema meu amigo, é que você estava tão preocupado reclamando do que achava ser seu defeito, que não percebeu a oportunidade de usar sua habilidade.
Então com um movimento delicado a águia apontou com o bico para o fim da depressão na frente deles. A pequena depressão seguia até terminar em um rio que por sua vez se estendia por todos os lugares que se via. Ele contornava morro acima, até a casa da bela cisne, e descia passando pela cidade.
O pinguim sentiu seus olhos encherem-se de lágrimas, e afundou-se numa sensação agradável de pertencimento. Porém logo depois sentiu a dor lacerante da sensação de perda.
- Todos esses anos. Por todos esses anos você estava tão cego com a ideia que botara na cabeça, de que era inferior aos outros, que não observou o que estava na sua frente. Estava tão preocupado comparando-se aos outros que esqueceu de ser único.
O pinguim ajoelhado sentia enfim o peso do tempo, das preocupações esmagarem seu corpo. Chorava lembrando-se de tudo que poderia ter vivido. Lembrando do que perdeu. A água gentilmente colocou sua asa em volta do amigo e murmurou em seu ouvido.
- Você sabe, nunca é tarde demais.
O pinguim abriu seus olhos ainda nublados de lágrimas e permitiu-se sorrir. Sem dizer mais nada ele pulou na depressão à sua frente, deslizando com o peito até chegar ao rio. Dentro da água a sensação era revigorante. Sentiu esse mesmo peso excruciante cair no chão. Sentiu a insegurança, a vergonha dissiparem-se com o fluxo do rio, lavando mais do que suas penas. Suas lágrimas misturavam-se com a água do rio, num misto de alegria e emoção. Havia se vencido. Era enfim pleno.
Créditos da imagem:
Stockbyte/ThinkStock)







Comentários