Silêncio
- 22 de nov. de 2014
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E era tudo silêncio. Um silêncio profundo, desconfortável.
Não como aqueles silêncios de antecipação a uma festa surpresa ou de brincadeira de “não pode falar”. Era mais como o silêncio em uma conversa quando não há mais assuntos, ou o posterior a um fora. Mas era ainda pior.
Era em toda a casa, em todo o lugar. Olhar para o quarto ou fotos não ajudava, parecia apenas aprofundar a eterna falta de som.
Era um silêncio seco de antecipação a algo que nunca iria chegar. Era um silêncio diferente, pois ainda ouvia coisas que não estavam lá.
Ouvia claramente a porta fechando e ele chegando com sua mochila colorida entulhada de materiais, dizendo alegremente que tinha um novo dever de casa e que aprendera coisas novas hoje. Sentia seus passos singelos chegando com sua bola quicando no chão, perguntando se podia brincar lá fora. Escutava ele gritando de seu quarto “boa noite” antes de dormir.
E como no silêncio que agora perpetuava, ele partiu; sem mochila, sem bola, sem boa noite.
Isso não estava certo. Isso não era a ordem natural das coisas. Filhos deveriam enterrar seus pais não o contrário. Pois quando um pai enterra seu filho, está na verdade enterrando a si mesmo, perdendo um pedaço vital que aprendeu a não viver sem, e que jamais será reposto.
E toda noite quando ia se deitar dizia boa noite ao marido, com quem dividia o peso do eterno silêncio e um boa noite silencioso, porém real, para o qual pra ela havia resposta, em alto e bom som. “Boa noite mãe.”

Créditos da imagem: 2012 Audrey Kletscher Helbling






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